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sobre estados de alma e outras insignificâncias... :)


04
Fev13

O tempo muda-nos

por Lazy Cat

 

Não só o tempo meteorológico, que tem esse poder imediato a partir do momento em que abrimos os olhos, cada dia, mas o tempo tempo.

 

Aquele que contamos em manhãs e tardes, horas, dias, anos, séculos. Os séculos terão pouca influência directa sobre nós. Já dos anos não posso dizer o mesmo.

 

O tempo muda-nos. Molda-nos. Transforma-nos em algo que não éramos. Aguça pontas, amacia cantos, alonga tarefas, diminui prazeres…o tempo muda-nos. Inexoravelmente. Acho que esta é daquelas palavras que não consigo deixar de usar. É bastante mais fácil, rápido e simples usar uma só palavra para expressar uma ideia do que várias. Gosto bastante mais de dizer que o tempo nos muda inexoravelmente do que “o tempo muda-nos e essa mudança é algo a que não se pode escapar” mas não se pode.

Há uma mudança física, lenta, gradual, mas certa. Há mudanças na maneira de fazer certas coisas, fruto de aprendizagem e experiências. Muda-nos o tempo e mudam-nos as pessoas com quem nos cruzamos ao longo do tempo.

 

Disse há poucos dias que, chegada aos quarenta anos, tenho noção de que fiz algumas coisas bastante mal, por não dizer que fui péssima em determinadas áreas, e que pretendo, daqui para a frente, fazer melhor. Responderam-me que já temos mais experiência, mais maturidade, que é perfeitamente normal esperar que assim seja.

 

Mas, porque isto nunca é assim tão linearmente fácil, porque muitas vezes, sozinhos, aprendemos mal, porque não trazemos pendurado da orelha direita o manual de instruções para a vida que (parece) escolhemos, muitas e muitas vezes desistimos de fazer o caminho, estando assim, a perpetuar o erro. E, desistindo, não aprendemos nada?

Aprendemos, mas só muito tempo depois é que conseguimos ver que há um padrão, logo, só muito tempo depois é que podemos mudar (ou não) esse padrão. Logo, talvez tivéssemos aprendido algo antes (há mais tempo) se não nos tivéssemos sentado à beira do caminho com a cabeça em baixo e os braços caídos. Digo, sentado à beira do caminho, poderia dizer se não nos tivéssemos atravessado noutro caminho qualquer e o tivéssemos reclamado como nosso, certos de que desta é que ia ser….pois, pois…

 

Quero falar de insistir. Da quantidade de vezes que eu achei que, se estava a ser muito difícil, era porque eu estava a fazer algo errado e de todas as vezes em que, para evitar cair no erro de desistir a meio me forcei a querer levar a bom porto coisas que não tinha capacidade para carregar. Mas, convencida que sem esforço nada se faz, que se me esforçasse muito ia conseguir, insisti e insisti e insisti…no mesmo erro. Anos a fio.

 

E então? Em que é que ficamos? Desistir e ficar sentados à beira do caminho não é opção. Insistir, pelos vistos, também não leva a lado nenhum. E então, volto a perguntar? O que é que se faz? Como é que se faz? Qual é a regra?

 

E não é que, com esta última perguntei acertei na resposta? Não há regras. Mas há uma regra. A mesma regra que funcionou para mim durante vinte anos inteiros ou até quem sabe, um pouco mais. A regra é simples: faz-se aquilo que nos faz bem. É parar? Paramos. É avançar? Então avançamos. É correr devagar? É isso que se faz. E agora? Agora é voltar ao mesmo caminho? Volta-se. Até se desistir tantas vezes que já não se volta lá ou, até chegar ao fim. Ou até estarmos tão cansados de caminhar que nos voltamos a sentar. Ou…seja qual for a escolha, não há senão uma regra. Fazer aquilo que nos faz bem. Não, não é a liberdade total. Todos estamos enquadrados numa estrutura e a nossa liberdade está condicionada às arestas e cantos da mesma mas, dentro dessa, só há uma regra: escolher o que me faz bem. Ainda que amanhã me faça mal e isso me leve a escolher outra coisa. Que, quero acreditar, me fará bem. Mesmo que o tempo passe e com ele tudo mude. Mesmo que me torne impaciente, vaidosa, mesmo que franza o nariz sem pudores ao que me desagrada, mesmo que isso não faça bem a outros. Mesmo que se me esgote a paciência, mesmo que o tempo faça de mim alguém menos espontâneo, mesmo que me canse e precise de andar mais devagar, mesmo que precise de um ouvido amigo, de um ombro, de uma mão. Mesmo que o tempo faça com que, aos quarenta anos, perceba que aos vinte, estava certa na essência e que, por vezes, é preciso estar muito mas muito afastados do caminho para lá conseguir voltar.

 

O que se sabe aos quarenta com vinte sem perder a irreverência, queriam, não queriam?

 

 

 

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2 comentários

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De V.A.D. a 06.02.2013 às 15:31

Humm... Não acho que o Tempo diminui prazeres. Aliás, sinto precisamente o contrário. A partir de uma dada altura, a maturidade faz com que se saiba apreciar mais e melhor cada pequena coisa, proporcionando alguns êxtases, impossíveis quando se tem demasiada pressa de viver. Em "câmara lenta" aprecia-se cada detalhe e vive-se cada "agora" com uma intensidade inigualável...

Beijo e sorriso :-)*
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De Lazy Cat a 07.02.2013 às 15:21

Suponho que lá chegarei...pelo menos estou a fazer a minha parte, tão conscientemente quanto possível para lá chegar....à velocidade de cruzeiro....ao sítio onde se consegue realmente saborear a vida.

Quanto a diminuir prazeres...se um dos prazeres for o mar, andar perto de, dentro de e se, o tempo (aquele que nos envelhece assim só um bocadinho) tornar isso "penoso" diminui prazeres...não no sentido em que diminui a capacidade de sentir prazer mas no da diminuição da capacidade física que permite aceder a esses prazeres. Neste caso até se aliaram 2 tempos: o que passa e o que faz!!!!


Beijos V.A.D.
muitos

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